Querida Tia Landa

São Paulo, 15 de setembro de 2018

Querida Tia Landa,

Como sempre acontece, você passa o aniversário cercada dos sobrinhos queridos que vivem nessas bandas do sul e que a sequestram todos os anos.

Quando venho visitá-la, me anuncio na Portaria como seu sobrinho do Sul.
— Qual deles?
— O Dagoberto.
— Mas você não é do Sul!
— Sim, sou da zona sul da Capital.

Para esta comemoração de seu Primeiro Centenário, escrevi algumas linhas que quero compartilhar com todos os nossos amigos aqui presentes:

Desejar-lhe boa saúde é conversa fiada, pois a última vez que eu a vi acamada, eu tinha nove anos.

Então, que posso desejar-lhe: uma vida longa?

Qual! você anda enganando toda a gente com seus 100 anos, quando seus documentos comprovam que são 103!

Durante anos foi dedicada cuidadora de suas irmãs as quais a foram deixando só, restando-lhe a missão de alegrar os sobrinhos.

Ainda muito bonita, totalmente lúcida, enérgica e sacudida, conserva a pele lisa e os olhos vivos com os quais sobreviveu a duas guerras mundiais, testemunhou a invenção do avião, do cinema falado e a cores, dos satélites artificiais, da televisão, viu através dela o homem caminhar sobre o solo da lua, entrou na era dos eletrodomésticos e do computador, continua contemporânea da clonagem de ovelhas, da internet e fã dos aplicativos, viu a evolução do telefone de manivela para o atual celular, sem contudo nunca perder a mão para fazer um cafezinho, à moda antiga, para o seu sobrinho amado que abaixo subscreve.

Se não fosse o seu problema de locomoção, prejudicado por um acidente banal, bem que poderíamos sair dançando uma gafieira para mostrar à essa moçada a raça da tia que eles têm.

Que posso lhe desejar, afinal?! O único que me ocorre é que Deus dê saúde e conserve, por mais uns anos, essa sobrinhada bonita com seus familiares e amigos que a cercam de tanto carinho, para que você não venha a se sentir só quando a idade avançar.

Há um segredo que quero revelar agora, relacionado com seu poder de atração, aquele que faz que gerações de sobrinhos de todas as idades, espalhados por todo o Brasil a procurem e tenham tanto interesse em partilhar de sua companhia.

É que você, tal qual o sol, ilumina e aquece a todos sem julgamentos, sem preferências, fazendo o amor divino escoar em abundancia por esse canal de luz no qual se transformou e dedicou sua vida.

Com minhas felicitações e agradecimentos a todos que aqui vieram demonstrar carinho e valiosa amizade, receba um beijo carinhoso de seu sobrinho amado… do Sul.

1 thought on “Querida Tia Landa

  1. Tio Dagoberto. Dessa vez, por ocasião de seu nonagésimo aniversário não deu para eu ir até aí, onde, como sempre, sou muito bem recebido. Ocorre que eu também avanço em idade, você sabe, e por isso me esqueci dessa data sumamente importante. Essas possibilidades da vida moderna, tipo facebook para nos lembrar, eu não tenho por ser antiquado e meio dorminhoco. Então resolvi fazer como fiz desde sempre:
    Querido tio Dagoberto, pego na pena para lhe escrever, poucos dias passados da comemoração de seu aniversário, o nonagésimo. E o faço para nos alegrarmos à distância. Conhecemos os dois a máxima bíblica que diz “Alegrai-vos com os que se alegram” e, sabendo de sua alegria, fui contagiado. E fico a “pensaire” como se fala na terrinha: Que alegria chegar nessa idade e ter a saúde que você tem, e isso sem tomar remédio. Que alegria a lucidez que ilumina seu cérebro e permite a você comentar assuntos difíceis da economia bem como apontar as baboseiras que políticos mais jovens do que nós andam fazendo por aí. Que alegria quando me sento para meditar e me lembro de como você alcança fácil o alfa e lá fica por horas. Que alegria ver a foto de sua família e notar como está ela bonita e faceira e que nem mesmo esqueceu-se de lhe trazer o vinho. Que alegria constatar o seu desapego. Que alegria podermos, os dois, rememorar o passado sem por reparo algum nas linhas que Deus traçou e que jamais foram tortas. Que alegria relembrar seus escritos, os personagens, as histórias verdadeiras como aquela do não afogamento nas águas marítimas da Ilha Grande. Enfim, seria um quê de alegria infinda, se eu me deixasse ficar falando.
    Mas vamos ao ponto final de minha missiva. Um abraço apertado. Tão apertado como, dizem, dão os tamanduás.
    Do amigo antigo,
    João Daniel

Deixe você também seu comentário: