A GEOPOLÍTICA MUNDIAL DA CHINA (3)

3º de 4 artigos

EUA – CHINA

Em novembro último, três importantíssimas reuniões aconteceram do outro lado do planeta: a cúpula da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), uma outra do Leste Asiático, ambas em Cingapura, e a conferência da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), em Papua Nova Guiné.

A importância dessas reuniões está relacionada com o propósito dos países da região que estão procurando se posicionar e avançar em meio a excepcional mudança de poder internacional que representa a extraordinária ascensão da China comandada pelo seu já denominado imperador Xi Jinping.

Os presidentes da China, Japão, Rússia, Índia e Coreia do Sul participaram do evento, além dos países-membros.

A exceção foi Trump que esnobou o encontro e enviou o vice-presidente Mike Pence para representar os EUA. Pence, em seu discurso, chegou a afirmar que o seu país está preocupado com a ascensão da China. Por outro lado, o propósito dos demais participantes era a preocupação com os movimentos dos EUA em favor do unilateralismo e o rompimento seguido dos acordos assumidos no passado com a consequente redução da colaboração com seus aliados.

Entretanto, a China se sente fortalecida com sua posição de liderança e defesa do livre comércio, do multilateralismo e de apoio às organizações internacionais, de seu gigantesco programa de financiamento de infraestruturas e o acesso ao grandioso projeto Cinturão e Rota, instando os demais participantes a tomarem uma posição em relação a que lado preferem permanecer

O presidente americano não está empenhado em participar de reuniões, elaborar pautas de discussão, consolidar alianças e aprofundar vínculos na região. Esse comportamento está provocando um perigoso recuo de seu país no comércio com a região asiática.

Durante o governo Obama foi desenvolvida a TPP (Parceria Transpacífico) que tinha por objetivo manter os EUA presente e atuante nos países asiáticos que são responsáveis, fora a China que foi excluída do programa, por 40% do PIB mundial. Trump retirou os EUA do acordo. A China agradece a gentileza e avança entre os parceiros da América distribuindo investimentos, facilitando o comércio e fortalecendo o seu projeto SFI (Sistema Financeiro Internacional) baseado na moeda reserva Yuan, que integra a cesta de moedas do FMI e é bancada por reservas em ouro, negociadas em Shanghai.

Fico preocupado com o entusiasmo do deputado Eduardo Bolsonaro pelos EUA ao alardear um alinhamento automático do Brasil com aquele país. O Brasil é prioridade zero para os americanos e se a China e demais países asiáticos estão sendo descartados por Trump, o que o jovem Eduardo espera conseguir em troca de seu gratuito apoio?

Também apoiar a transferência da nossa embaixada em Israel para a Palestina vai criar muita insatisfação nos povos muçulmanos do Oriente, com resultados desastrosos para nossas exportações de proteína animal. O que ganhamos com essa iniciativa?

Recentemente, o governo americano divulgou uma lista de novas tecnologias que terão exportação restringida. Incluem IA (Inteligência Artificial), computação quântica e robótica. É meridianamente claro que essas restrições estão dirigidas a preservar o avanço americano e conter o da China. Contudo, a China já é avançadíssima na robótica, na computação nas nuvens, na internet das coisas, na produção de chips, na inteligência artificial. Basta ver que os melhores alunos em Harvard e MIT são asiáticos. Ocultar tecnologias é quase impossível nos tempos atuais. Até um país atrasado como a Coreia do Norte, desenvolveu a bomba atômica, cuja tecnologia nuclear é das mais policiadas.

Apesar das sanções impostas pelos EUA, a Coreia do Norte importou motores de foguetes, contratou técnicos e cientistas, fez experimentações lançando foguetes por cima do território japonês e o que aconteceu? Além de tapinhas nas costas e almoços regados à Romanée Conti, nada das opções de Trump sobre a mesa, tão alardeadas, foram aplicadas. O assunto morreu e a mídia se ocupa de outras novidades.

A China vem comprando empresas em todo o mundo, através de fusões, aquisições ou parcerias, abrindo seu mercado interno para empresas de todo o mundo e obrigando transferências de tecnologia. Está desenvolvendo um ambicioso programa “Made in China” que pretende, já em 2025, incluir produtos de alta tecnologia para exportação.

Vejam a Índia, com seu histórico de aumentar tarifas de importação para proteger seus mercados e sua indústria doméstica. Em décadas aplicando essa política, semelhante a que Trump está aplicando agora, teve como resultados empresas não competitivas, produtos de qualidade inferior, corrupção generalizada e estagnação econômica. A partir de 1990, o país deu início a um programa de governo, reduzindo burocracia, tarifas, implementando uma saudável política fiscal e, em três décadas, emergiu como outra grande potência, com crescimento anual já superior ao da China.

Em 1988, o presidente Ronald Reagan alertou a nação:

Devemos ter cuidado com os demagogos que estão prontos a declarar uma guerra comercial contra nossos amigos, debilitando nossa economia, nossa segurança nacional e todo o mundo livre, enquanto, cinicamente levantam a bandeira americana”.

Dagoberto Pacheco
Guarujá, 13/12/2018.

¥¥ ¥ ¥ ¥

Deixe você também seu comentário: