dez 212016
 

Este será o último relatório que publicarei neste ano. A importância dele é avaliar até que ponto o novo presidente Donald Trump seguirá adiante com suas promessas eleitorais. Nesta análise estarei atualizando a situação econômica real dos EUA e sua inter-relação com um mundo em rápida mutação e novos paradigmas.

TRUMP E SEUS PROJETOS

Os analistas de mercado comparam o projeto de Trump ao de Reagan, que em sua ocasião produziu crescimento econômico, bolsas em alta e ofertas generosas de emprego. Como as propostas são semelhantes, o mercado reagiu com euforia a partir de novembro, após a inesperada vitória de Trump, antecipada meses antes em minhas colunas. Dow Jones, Nasdaq e S&P 500 subiram com grande euforia antecipando o “Make America Great Again”. Será isso possível?

As condições na época de Reagan eram completamente diferentes das atuais. O endividamento do país era de 55% do PIB, os EE. UU tinham a hegemonia do comércio mundial e o dólar reinava sozinho permitindo todo e qualquer financiamento com a impressora de papel. A situação agora é outra, como detalharei mais adiante.

A alta atual nas bolsas faz sentido. As ações do setor de defesa estão subindo com a promessa de maiores dotações no orçamento. As ações de bancos sobem com a perspectiva de aumento das taxas de juros e menor regulação, o que favorece o setor bancário. Ações de construção, aço, mineração, materiais e transportes serão beneficiadas pelo programa de um trilhão para infraestrutura. Por enquanto trata-se de promessas de políticos e emoção de investidores. Como sabem, a bolsa sobe no boato e desce no fato.

O impacto na economia com o plano de Steve Bannon não terá maior importância além de acrescentar mais um trilhão em débitos.

A proposta de cortar taxas, reduzir a arrecadação e expandir gastos elevará a inflação. Consequentemente as taxas de juros serão elevadas e terão forte impacto sobre os custos dos empréstimos. O déficit e os débitos crescerão mais rapidamente que o PIB produzindo o efeito de freio na economia, com fechamento de empresas, perdas de empregos, redução do comercio internacional e mais dívidas.

Naturalmente, isso não é o que a equipe de Trump deseja, mas é o que irá enfrentar quando estiverem à frente da realidade, sobre a qual falarei logo mais.

O ciclo de aperto financeiro do FED, com aumentos mais frequentes das taxas de juros, fortalecerá o dólar, o que amenizará o crescimento da inflação, e derrubará o mercado de dívidas, os Bonds e Letras do Tesouro. Dólar forte, significa desvalorização das demais moedas, inclusive da moeda ouro, quando cotadas em dólar. Os produtos importados pelos americanos ficam mais baratos, o que ajuda a segurar a inflação, mas os produtos americanos ficam mais caros e difíceis de exportar por falta de competitividade. Essa é a fórmula correta da recessão. Baixo consumo, empresas fechando, desemprego em alta.

EUA DA ERA OBAMA

Já mencionei em outro relatório que os EUA levaram dois séculos para produzir uma dívida de $8 trilhões e o governo Obama, em apenas dois de seus mandatos, mais que duplicou esse débito. Essa situação faz toda a diferença em relação à época de Reagan.

O débito nacional americano está em $19,9 trilhões e enquanto estou escrevendo este relatório, já deve seguramente ter atingido os $20,0 trilhões. Como o PIB do país está estimado em $17,7 trilhões para o exercício de 2016, a relação Dívida/PIB = 1,13. Se dividirmos esse débito pelo número dos contribuintes que pagam impostos caberá a cada um $167 mil. Dificilmente cada um desses contribuintes terá recursos para pagar tal rombo nas contas.

Você ficou impressionado?

Isso é só a ponta do iceberg.

Os compromissos para social security, medicare, medicard criados no programa Obama Care são um verdadeiro desastre. Atualmente excedem $104,2 trilhões, o que corresponde a $872 mil por contribuinte.

Somando $872 mil + $167 mil = $1,04 milhões/contribuinte.

Os números não mentem jamais. Os americanos estão à procura de um Super-Herói que os salve e foi esse fato que considerei para prever a vitória de Trump, contra todas as correntes.

The Congressional Budget Office estima que o Social Security continue crescendo mais de $8 trilhões por ano. Você observou bem o número? São os mesmos $8 trilhões que os EUA levaram dois séculos para atingir em débitos até a eleição de Obama. Agora esse número não resiste a gastança apenas do Social Security em um ano.

Quando o Trump tomar sentido desses números talvez faça algo inesperado.

O Obama Care está caminhando para a insolvência. Geopoliticamente o mundo está uma bagunça. Excesso de dívidas do Governo e do setor privado inibem a produção e o crescimento econômico. Pode-se observar que mesmo as companhias rentáveis praticam programas de recompra de ações e aumento dos dividendos distribuídos ou praticam Fusões e Aquisições (M&A). Todas essas atividades são improdutivas, nenhuma conduz a expansão de áreas produtivas, aumento de oferta, empregos e novas riquezas.

O livro “O Capital” de Thomas Piketty afirma que a guerra é inconveniente para negócios. Alguém se dispõe a abrir um restaurante na Venezuela? Quem sabe um hospital na Síria? Que tal uma fábrica de celulares na Ucrânia? Instabilidade política e geopolítica é péssima para negócios e parece ser o que o próximo presidente está buscando incrementar ainda mais, no pico do leverage. (Alavancagem; excesso de dívidas)

O que é importante entender é que nós vivemos num sistema com socialismo estatal, mas o estranho é que se trata de um socialismo no qual os lucros são privados e as perdas são socializadas. Então se você não ficou preocupado, fique, porque está se aproximando a hora de passar a conta para o povo e pedir a colaboração e sacrifício do povo para superar o momento difícil em prol de um novo e róseo porvir!

NOVOS PARADIGMAS: A NOVA MOEDA MUNDIAL

A reação mais comum aos argumentos apresentados é que os EUA sempre tiveram a capacidade de dar a volta por cima superando suas dificuldades. E é verdade, realmente os americanos são muito criativos.

Uma das razões é o domínio do dólar. Imagine que você sendo americano pode importar um sapato da Itália, trazer um carro da Coreia e estará sempre pagando na própria moeda, sem se preocupar com o câmbio. Se o país fica endividado, como atualmente, é só imprimir novos dólares nas impressoras trazidas da China, pois muitos países estarão ávidos de comprar esses dólares para garantir suas importações e sua poupança contra a desvalorização das próprias moedas. Então não há porque se preocupar com inflação. Não havia. A partir de 2017, o mundo será de outra cor.

Já comentei em vários relatórios aqui no meu site que os BRICS, os países em desenvolvimento representados pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, firmaram um acordo para a criação de um novo sistema financeiro liderado pela China para tornar o Yuan a moeda reserva de negociação nas operações comerciais e financeiras internacionais, tomando o lugar do King Dollar. A eles também aderiram os países do Oriente Médio, o grupo que integra a OPEP, Irã, vários países latinos e asiáticos.

Esses acordos foram fechados na surdina, a mídia não os levou a sério e o câncer foi se espalhando. Atualmente, as operações comerciais dos Brics já não são totalmente efetuadas em dólares. Por causa disso as reservas em dólares da China de $4 trilhões caíram para $3 trilhões em pouco mais de um ano e meio e seguem caindo em ritmo mais veloz.

Como sabem, no início deste ano, a China ingressou no seleto clube SDR do FMI. Durante anos, os EUA vetaram a entrada da China, porque eles possuem isoladamente a maior participação, acima de 15%, na cesta de moedas o que garante o poder de veto. Em 01 de janeiro de 2017, os Brics terão ultrapassado os EUA e poderão ditar novas regras.

Aí, antevejo duas possibilidades:

1- A China oficializa o novo sistema financeiro baseado no Yuan e com respaldo em ouro que veio acumulando ao longo dos últimos dez anos.

2- O FMI, para evitar que a alternativa 1 aconteça, poderá efetivar a criação de uma nova moeda mundial para todas as operações comerciais e financeiras que será lançada ainda no primeiro trimestre, desbancando totalmente o dólar da posição atual de moeda reserva proeminente.

A nova moeda criada será respaldada pelos PIBs de cada país participante e quanto menor a métrica Débito/PIB maior será a participação da moeda do país aumentando sua importância no mercado internacional.

Perdendo o trono, o dólar tenderá a se desvalorizar porque não haverá o mesmo interesse dos países em possuí-lo como reserva e novas emissões, sem compradores ávidos, resultará em inflação e desvalorização.

Em consequência, o ouro, a prata, a platina e urânio subirão no mercado internacional, cotados em dólares.

É esperar e ver. Esteja do lado certo para defender o seu. Ninguém virá para salvá-lo.

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