QUANDO DOIS CAMINHOS SE ENCONTRAM

Guto Pinto

“O Caminho que pode ser nomeado não é o Caminho”.  Lao Tsé

O livro narra a vivência de Augusto ao longo dos 800 km do ‘Caminho de Santiago de Compostela’.  Trilhado por milhares de peregrinos, muitas experiências já foram vividas e relatadas sobre os processos de transformação que ocorrem no interior do caminhante.  O Caminho é uma metáfora da nossa peregrinação pelo planeta terra, ao longo de nossa vida.  Não sabemos como vai ser, o que vamos encontrar, que experiências viver. É preciso viver cada dia enquanto se vai deixando pelo caminho muitas das coisas que levamos as quais julgávamos indispensáveis, pois a mochila pesa mais em cada dia vencido. É o aprendizado da renúncia e a aceitação resignada das perdas. Ao longo da vida vamos perdendo os cabelos, os dentes, o viço, a juventude, a disposição, a memória, os sentidos fraquejam, os amigos viram lembranças e sabemos afinal que estamos prestes a chegar. É o aprendizado do desapego. Guto encarou bem essas fases na descrição de suas experiências.

Há três fases distintas que ocorrem com a maioria dos peregrinos:

  1.  A fase EGOICA no primeiro terço do caminho. Todos estão confiantes, motivados, sorridentes, carregam uma mochila cheia que oferece a mesma segurança de uma geladeira abastecida de alimentos e bebidas. Julgamos os outros, damos-lhes apelidos, pregamos etiquetas, competimos, criticamos.
  2. A segunda fase é a da DEPRESSÃO. Ocorre no segundo terço da caminhada. Estamos cansados, esgotados, nossos movimentos são mecânicos e sem vida, sobrevém a dúvida: “será que vale a pena?” O grupo quase não se fala, alguns se distanciam para estar sós. O peregrino se enxerga um fracassado, se identifica com todos os demais, independente de cor, raça, classe social e cultura. Estão nivelados e necessitados de ajuda. Sobrevém um sentimento de culpa de todas as mazelas que ocorreram em suas vidas. Para Augusto nada mais importa apenas a consciência que deseja se desvencilhar da casca que o envolve, o ego falso que construiu ao longo da vida.  Esse é o sentido do ritual da queima da própria roupa usada.
  3. No terço final a caminhada torna-se inteiramente automática, não se pensa no caminho, não se avaliam as distancias, apenas se coloca um pé dolorido adiante do outro inchado, o corpo apoiado no cajado, introspectivo e meditativo. É a fase ESPIRITUAL. Aí o peregrino liberta-se do jugo do ego e abre seu coração para a unificação com o Eu Superior, o chacra que o conecta com as forças espirituais. Torna-se sensível, condoído do sofrimento alheio, cooperativo e irmanado na comunidade caminhante. Acontece o fenômeno da conversão, manifesta-se nos atos de aceitação e entrega e uma nova energia apossa-se dele.

Envolvido na energia espiritual, pela ativação do chacra, já  não vê os demais pela ótica de seu subjugado ego, mas abre-se aos demais como nunca havia experimentado antes, sem condições, receios ou imposições. Agora se sente irmanado, aberto, vivendo a experiência do amor universal que abarca a todos, sem distinção. Compreende que a verdadeira experiência não é a chegada, mas o próprio ‘caminho’ o qual continuará a ser percorrido em outros níveis até a consumação dos tempos.

Em sua narrativa, Guto falou dessas fases e foi fiel às transformações que ocorreram em Augusto. Foi uma pena que tivesse utilizado a terceira pessoa em vez da primeira. Porque na 1º pessoa o escritor entra em contato com sua própria vivência, com seus sentimentos ocultos e, como numa terapia, desafia seus demônios e os coloca para fora num enfrentamento de si próprio dando ao texto outra força de expressão com o consequente envolvimento do leitor no processo. Na terceira pessoa a narrativa perde força, legitimidade e emoção. Ao invés de dizer que lágrimas brotaram nos olhos de Augusto ou que ele chorou compulsivamente, melhor seria deixar jorrar os sentimentos daquele momento.

Talvez, por isso, introduziu no texto pinceladas de magia, como o encontro com a cartomante, a aparição do avô, as inúmeras coincidências em relação ao nome de sua companheira, bem ao estilo do bruxo Paulo Coelho.

Esperava mais, que Guto entrasse fundo na relação de Augusto com a companheira, lidasse com a situação a partir dos novos aprendizados e alcançasse a redenção com ela, se possível, ou com a última e derradeira Glória do livro.

Obrigado Guto por partilhar conosco suas vivências espirituais.

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