Letter 06 – Quem será o vencedor? Os derrotados seremos nós!

Dagoberto Aranha Pacheco

Recordando um pouco da história, até meados do século XX o governo americano não podia emitir dinheiro à vontade como faz atualmente. O volume de dinheiro em circulação era vinculado a uma quantidade de ouro depositada no Banco Central, o FED. Cada cidadão americano podia ir a qualquer banco e trocar seus dólares por valor equivalente em ouro. Esse foi o motivo que deu confiança a um pedaço de papel impresso chamado dólar e manteve estável o sistema financeiro por mais de um século.

Dollar vs. Yuan - Torn hundred dollar bill with Mao from yuan

Em 1971, o então Pres. Nixon, aboliu o padrão ouro e o substituiu pelo ouro negro, o petróleo. Juntamente com o Secretário do Tesouro, Henry Kissinger, viajou até a Arábia Saudita, sentou-se com os donos do petróleo da OPEP e fez a seguinte proposta: toda a comercialização do petróleo em escala mundial seria feita numa só moeda, o dólar. Em contrapartida, os EUA se comprometiam a oferecer aos produtores proteção militar, já que eram, indiscutivelmente, a maior potência bélica do planeta.  A Arábia Saudita aceitou com os demais membros da OPEP e os EUA, com essa iniciativa genial de Kissinger, tornou-se a polícia do mundo, em plena vigência da guerra fria, e o país ‘diferente’ que continuará sendo até outubro próximo. Em consequência, todas as reservas mundiais se converteram em dólares e todas as transações comerciais, mesmo as que não se referiam à energia, se dobraram ao dólar, por conveniência. A partir de então os EUA passaram a ser o único país do mundo que não precisava pagar suas importações ou empréstimos em moeda estrangeira.

Talvez, por falta de familiaridade com este tema um tanto complexo, ainda não se deu conta da enorme facilidade que isto representou para os EUA. Um verdadeiro privilegio sobre todos os demais países. Mas…essa moleza vai acabar em outubro próximo como já ficaram sabendo apenas por estas Letters.

Se foi vantagem, um privilégio, não há dúvida, mas como os chineses sabem muito bem através da profunda filosofia que está por trás das lutas marciais que eles desenvolveram, muita vantagem produz fraqueza. E foi exatamente o que ocorreu com o trato político da moeda. Os políticos achando que o país era invencível, baixaram a guarda e o tornaram vulnerável.  Como já expliquei, podiam emitir dinheiro sem parar porque o mundo todo se encarregava de absorvê-lo, já que precisavam de reservas em dólar para seus pagamentos internacionais.

Vejam que aqui no Brasil, o governo esbanjou dinheiro nos campos de futebol e estádios para a Copa do Mundo, mas como ninguém mais quer reais, além dos próprios brasileiros, a inflação saiu dos trilhos e para consertar a situação um ajuste fiscal veio apertar o pescoço dos brasileiros, os derrotados, obrigados a pagar a conta.

Voltando aos EUA, para terem uma ideia, a base monetária—a quantidade de moeda em circulação e nas reservas do Banco Central—subiu de $1,1 trilhão, em 2008, para 4 trilhões em 2014, numa média de $484 bilhões, por ano. Isso é um trem sem freios em disparada ao abismo. Por enquanto, a paisagem que se vislumbra pelas janelas é bastante agradável e tranquila.

O povo americano deve à China $1,5 trilhão de dólares. Isso representa algumas centenas de bilhões de dólares a mais do que o governo coleta em impostos de indivíduos e empresas durante um ano. Presumo que os chineses, que não são nem um pouco tolos, prepararam uma armadilha da qual os EUA não poderão sair, conforme descrevi na Letter 05 e amplio nesta.

A economia americana tem uma insustentável carga de dívida que só tende a ficar pior. A forma mais fácil desse governo fazer frente a esse débito monstruoso é imprimir dinheiro, dia e noite sem parar, como faz atualmente. Como todo o mundo, como já expliquei, absorve esse excesso, a situação é tranquila para os políticos que lá, como aqui, são ignorantes, oportunistas e só pensam em si mesmos e empurrando a situação com a barriga continuam a apreciar a paisagem do trem da alegria que os conduzirá inevitavelmente ao desastre.

Quem vai resolver é a China e o custo sobrará para todos nós que estamos vinculados ao King Dollar. Quando a China, após outubro próximo, partilhar com os EUA o mercado mundial que passará a ser cotado em dólares e yuans e nesta moeda o mercado de energia—petróleo, gás, carvão e demais minérios—a liquidez dos EUA vai evaporar.

O FED terá de aumentar a taxa de juros para atrair a poupança de investidores para os seus títulos de dívida e aí, exatamente, está o golpe fatal da China que imobiliza o oponente que parecia vencedor. Logo se darão conta de que não poderão aumentar a taxa, como veladamente já demonstraram, pois vem ameaçando desde o ano passado e sempre prorrogando, sem tomar atitude.

As razões são as seguintes:

1—A dívida impagável ficará ainda maior e mais cara, com a elevação das taxas.

2—Provocará um crash no mercado de bonds, justamente o mercado para o qual desejam mais investidores.

3—Derrubará o mercado de ações, afugentando os investidores que necessitam atrair.

4—Com a taxa quase nula que predominou desde 2008, países emergentes e empresas estrangeiras tomaram empréstimos em dólares porque eram muito baratos para alavancarem seus negócios. Os débitos estrangeiros subiram de 6 para 9 trilhões de dólares, desde então. Uma elevação abrupta da taxa de juros vai provocar default com efeito dominó ao redor do mundo e muitas grandes e conhecidas empresas serão simplesmente varridas do mapa.

5—Milhões de estrangeiros têm investimentos em bancos americanos em Fundos de Investimentos, Fundos de Hedge e de Ações como proteção de capital e reservas para a aposentadoria. A situação de instabilidade financeira que poderá ocorrer a partir de outubro, com a mais volumosa transferência de fundos já vista nos últimos 50 anos, tornará estrangeiros pobres da noite para o dia com a desvalorização brutal de seus ativos.

Essa é uma possibilidade não descartável e já ocorreu na segura e confiável Suíça, em 15 de janeiro de 2015, quando o Banco Central daquele país anunciou que estava colocando fim na paridade cambial. O franco valorizou 40% em questão de minutos e estrangeiros, sobretudo europeus, perderam 40% no valor de seus ativos. Casas e escritórios financiados em condições muito favoráveis se tornaram impagáveis e as atividades de turismo e exportação ficaram paralisadas.

A dimensão do mercado financeiro americano é 3.000 vezes maior que a circulação do franco suíço. O desastre poderá ser o de um tsunami devastador.

Quando o povo americano tomar conhecimento deste assunto, após o acontecido, sofrerá os efeitos no bolso, na perda do emprego e de seus direitos trabalhistas, porque as empresas onde trabalhavam fecharam insolventes. Então, se encherá de raiva irracional e incontida e irá revoltado às ruas batendo panelas, quebrando as portas dos bancos, destruindo e ateando fogo, furiosa e descontroladamente, tal como aconteceu recentemente em Baltimore.

*  *  *

Encerro aqui esta série de 6 Letters sobre a ‘A Guerra das Moedas’ e quero deixar uma mensagem de otimismo, diante do descalabro que estamos vivendo em todas as esferas.

Na reunião do IMF, dirigida pela inteligente e comedida Christine Lagarde, os EUA terão de aceitar, à contragosto, a inclusão do yuan como participante da cesta de moedas ADR e, por certo, exigirão que o yuan tenha uma paridade cambial vinculada ao dólar para manter o equilíbrio das moedas e postergar a inevitável desvalorização do dólar frente ao yuan. O seguro Ministro das Finanças da China, Lou Jiwei, certamente aceitará nesta oportunidade, levando em conta que a China ainda não está preparada para comandar o mercado financeiro internacional e, por outro lado, sendo pragmático como já demonstrou em várias oportunidades, interessa à China ingressar no clube, ainda que tenha de inicialmente se pautar por suas regras. A questão é até quando.

Espero que meus leitores que não são numerosos, mas certamente qualificados, apresentem aqui suas opiniões e impressões pelas quais antecipo meus agradecimentos.

Guarujá, 24 de maio de 2015.

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