HAPPY HOUR II

Por que resistimos a mudar?
Qual é a raiz do medo?
Podemos nos libertar de nossas couraças?
Como nos comportamos ante as inovações?
Por que devemos imitar as borboletas?

 

No artigo anterior, comentamos sobre como as más escolhas afetam nossas vidas. Talvez seja este o momento apropriado para refletirmos sobre as causas que nos levam a conviver com nossas más escolhas, ao invés de decidirmos virar a mesa.   Observemos o que se passa com o ciclo de vida da borboleta. Primeiro surge a lagarta. Depois de algum tempo, ela começa a enrolar-se num fio fino e resistente, produzido pela glândula salivar, até ficar totalmente envolta num casulo ou crisálida, onde permanece em estado de hibernação até transmudar-se numa borboleta.   É neste momento que a borboleta devora o casulo, e escapa para uma nova vida cheia de perigos e aventuras, ajudando a tornar o nosso mundo mais belo e colorido.

Que semelhança tem isso conosco?   Tudo a ver!   Nós também vivemos nossa fase de crisálida.   Nosso processo de formação, a partir de uma criança tenra e desprotegida, nos faz ficar cada vez mais enrolados em várias camadas de proteção, as quais os psicólogos denominam couraças. Entretanto, à medida que ganhamos maturidade, vamos ter de ir devorando essas couraças e expondo o peito aos perigos e ameaças do mundo, sem medo.   Porque o medo é incompatível com o desbravador, com o guerreiro e com o sábio.   Entretanto, quantos de nós permanecemos envoltos em seus casulos, levando uma vida medíocre e insatisfatória, só a troco da parca segurança que ele oferece?!  Preferimos viver sofrendo e aborrecidos com nossa tediosa vida conhecida a nos defrontarmos com uma nova experiência.   O empecilho para nos atirarmos ao desconhecido é o medo de perder o contato com o conhecido.   Essa é a raiz do medo: o conhecido.   Do desconhecido não se pode ter medo, porque dele não temos nenhuma experiência.   Perder o conhecido é que nos atemoriza.   É preciso experimentar isso — devorar o casulo – para compreender que o medo é a causa da apatia, dos processos de fuga e da indecisão.

Uma boa técnica para livrar-se do casulo é observar-se, identificar as placas ou camadas de proteção que fomos tecendo ao longo do tempo e dar um nome apropriado a cada uma delas.   Vou ilustrar com alguns exemplos:

 

 1. Oportunidade de fazer um curso, ou de concorrer a um workshop interessante.  Vem a reação: “Não tenho tempo! Também acho que não vou aprender nada que já não saiba”. Dê o nome a essa placa de defesa: “PREGUIÇA”.

2. Oportunidade de dar uma palestra ou participar de debates numa mesa redonda.   Vem logo a reação: “Sei não, acho que não tenho competência.” Lembrou-se de que sua mãe vivia repetindo: “Você faz tudo errado! Quantas vezes eu tenho de repetir para que você aprenda”!  Dê o nome à defesa: “MEDO DE SER CRITICADO.”

3. Oportunidade de iniciar um novo relacionamento amoroso.   Reação: Chega! Já deu errado uma vez e não quero voltar a me machucar! Dê o nome à defesa: medo de “REJEIÇÃO”.

 

Só depois que puder nomear muitas ou todas as placas que você teceu com seus músculos e nervos, para esconder-se da realidade, é que se tornará confiante o suficiente para rir-se de si próprio, deixar de levar-se demasiado a sério e sentir-se seguro para enfrentar as mudanças.

É preciso ter em conta que o mundo de hoje já não oferece nenhuma ilha segura onde possamos nos esconder.   O mundo está mudando num ritmo alucinante e nunca se viveu uma época onde as situações fossem tão inovadoras. Sentimos não ter paradigmas nos quais apoiar e exemplos em que possamos confiar e seguir, nem mesmo para estar seguros da educação que queremos para nossas crianças.

Seria oportuno, refletirmos sobre porque é vital para nossa sobrevivência estarmos preparados de antemão.  Pois, como já havia mencionado, o bom estrategista está sempre preparado para surpresas e essa é a melhor de suas virtudes.

A reação mais comum do ser humano é fazer resistência às mudanças.   Gostamos do casulo porque preferimos a mesmice ao invés da novidade que nos afeta e exige esforço de adaptação.    Deveríamos considerar mudanças como fonte de oportunidades a serem exploradas para o nosso desenvolvimento pessoal.  Entretanto, reagimos às mudanças adotando vários comportamentos, alguns estranhos, outros engraçados, mas todos eles prejudiciais a nossa sobrevivência. Vamos comentar alguns desses comportamentos: talvez algum leitor que me acompanhou até aqui, conheça alguém que diria que as mudanças, em geral, são passageiras e que tudo continua sempre na mesma! Seria o caso do negador aquele que não aceita a evidência que seus sentidos registram. Conclui que as mudanças são  modismos superficiais e faz constante uso de clichês como: “os jovens sempre foram rebeldes” e “não há nada de novo no planeta terra.”  Ao negar-se a admitir e tentar compreender o que vê, fica apegado aos valores conhecidos do passado, como âncoras, e assim prepara sua catástrofe pessoal.

Outro dia fui ao Piazza Baltazar para jantar na companhia de um médico que não reside, como eu, neste bairro especial da Vila Nova Conceição. Jogando na conversa algumas das ideias que pretendia veicular aqui, percebi que meu convidado não bloqueava todas as ideias novas, mas apenas as observava pelo estreito canal de sua vida profissional.  É o caso do especialista que aceita e acompanha as inovações tecnológicas de sua profissão, mas resiste a ser aberto para considerar a possibilidade de mudanças na estrutura social, política e econômica.  Apegado à mentalidade do passado que considera a única viável (porque é a única que recebeu pronta), nada quer saber sobre as mudanças da sociedade expressas, com mais evidência, na revolução dos costumes (ex.: movimento de 68), nas reivindicações das minorias, (ex.: MST) nas lutas pela preservação do meio ambiente (ex.: Green Peace) e na participação mais ativa da comunidade na vida social e política (ex.: ONGs).   Considera que são movimentos de desocupados e oportunistas.   Um dia pode ser atropelado pelos acontecimentos que ocorrem lá fora, à margem de seu campo de visão.

Outros se firmam nos valores do passado. As soluções para o presente, o saudosista sempre as encontra no passado.   Se a educação autoritária funcionou antes, o psicologismo de hoje é o culpado da indisciplina e rebeldia dos jovens.   O Unabomber, o terrorista preso há algum tempo e que enviava cartas bombas para os centros de alta tecnologia, universidades e centros de pesquisa, advogava a destruição dos promotores do progresso, inclusive dos robôs e computadores e defendia a utopia do retorno à vida simples do campo.   Embora fosse professor universitário e com graduação em Harvard, residia nas montanhas, numa choupana sem água corrente e sem nenhuma das comodidades modernas, totalmente coerente com suas pregações saudosistas.

A queda do muro de Berlim, a construção de uma cerca eletrificada na fronteira do México e EEUU, a unificação da Europa num bloco e a implantação da moeda única, o Euro, o desmembramento da União Soviética, a queda dos grandes líderes de seus pedestais, o fim do comunismo, a globalização, são acontecimentos recentemente ocorridos e que produziram enormes transformações na vida de toda a humanidade e num espaço de tempo tão curto que não pôde ser assimilado nem compreendido pela grande maioria das pessoas.   Este não é o caso do simplificador que sempre tem uma equação simples para explicar qualquer fenômeno complexo: “É o fim dos tempos! Já estava escrito”! “Isso faz parte da conjunção dos astros e é claramente explicado pela Astrologia”.  “É o carma da terra”.

Na realidade, as pessoas apresentam esses comportamentos típicos ou mescla deles, por uma necessidade de dar uma explicação ou encontrar um sentido para os fenômenos que ultrapassam sua compreensão.   Como pode um chefe de família exemplar chegar a casa e informar à esposa e aos filhos que, apesar de sua fidelidade e dedicação de anos à empresa onde trabalha, foi despedido, sem motivo aparente?   Como pode o sindicalista apresentar-se aos trabalhadores da sua categoria para convencê-los a abrir mão dos direitos adquiridos, em anos de lutas, simplesmente para conservar seus empregos?

Entre os mais jovens, a bebida e a droga podem constituir uma solução simplificada, mesmo que temporária, da alta tensão a que estão submetidos, num mundo que lhes pede decisões e não lhes oferece parâmetros, modelos, padrões de comportamento e valores a serem respeitados e que possam ser válidos e adaptáveis às circunstâncias em constante e veloz transformação.   Pode-se entender que a realidade é para eles ameaçadora e altamente estressante, daí o apelo fortíssimo para a fuga da realidade pelos meios conhecidos.

Os pais que se preocupam sinceramente com essas ameaças a que seus filhos e a juventude estão expostos e também submetidos à tensão por não saberem como lidar com a situação, inconscientemente fazem o mesmo, envenenando-se com tranquilizantes e soníferos, entregando-se à bebida ou se deixando estupidificar pelo domínio da televisão, como forma de alienação temporária, nas horas de lazer.

Os tempos são difíceis e vivemos cercados de perigosos inimigos.  A saída é desenvolver uma mentalidade de estratégia de vida: avaliar seus pontos fortes e fracos e elaborar um plano para estar preparado para novas mudanças e para enfrentar o novo e desconhecido. É com o desconhecido que doravante vamos conviver.

Como essas transformações nos estão afetando, inclusive nossa saúde mental?

Bom tema para um próximo HAPPY-HOUR.

 

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