dez 222011
 

É meu propósito apresentar, nesta nossa conversa, uma nova abordagem que ofereça, como atrativo, um momento de reflexão sobre sua própria estratégia de vida.  Em geral as pessoas tem muita dificuldade de reconhecer uma informação como nova ou mesmo inovadora. A razão é que recebem as informações e as filtram com seus próprios preconceitos.  Por isso, é sempre mais fácil falar às crianças, pois elas são um livro em branco.

Então, para que esta leitura seja útil e interessante, eu apelo a você que desperte, neste momento, a criança que leva dentro de si e deixe descansar a mente, a dialética interna e permaneça num estado de prazer, sem a interferência crítica da razão.

Se nossa interação, nesta abordagem, for bem sucedida, associada a uma disposição correta de abertura e receptividade, tenho certeza de que não lamentará ter-me concedido, neste momento, a honra de seu precioso tempo.

 

ESTRATÉGIA

Estratégia é uma arte que tem sua validade e aplicação sempre que há resistências e dificuldades que se interpõem no caminho da realização que temos em mente. Uma partida de futebol que fosse jogada por um só time não necessitaria de estratégia. A existência de um time de oposição é o que torna o jogo interessante.  Para se alcançar o objetivo, vencer a partida, são necessários, além do excelente treinamento e preparo físico dos jogadores, um líder com um bom plano, capaz de neutralizar o plano do oponente e fazer uso de várias artimanhas capazes de quebrar o moral do outro time e manter elevada a garra do nosso.

Para simplificação, vamos adotar, ao longo desta nossa conversa, a denominação ‘inimigo’, para o oponente, e ‘guerra’, a luta que se trava para neutralizar, desmotivar e fazer o inimigo render-se.

Podemos, agora, definir estratégia como a arte de estabelecer planos, principalmente contra os planos do inimigo.  Pressupõe, portanto, o conhecimento dos planos do inimigo ou, pelo menos, a percepção de como ele agirá e com que meios.   Táticas são ações que conduzem à realização desses planos.   A quebra do moral do inimigo é uma de suas formas mais eficientes.  Você deve recordar-se do debate televisivo entre os candidatos à presidência, Collor & Lula.   Lula vinha ganhando, com folga, nas pesquisas e estava confiante demais.  Não se preparou o suficiente nem tinha planos para contra-atacar as eventuais táticas do inimigo.   Não considerou seus próprios pontos fracos e tampouco o ponto forte do inimigo: a falta de escrúpulos.   Quando a enfermeira Miriam Cordeiro, ao preço de um belo apartamento no Rio, fez as declarações de todos conhecida, Lula perdeu a iniciativa, entrou em depressão, baixou a guarda e entregou o pescoço ao inimigo.

Sun Tsu no livro ‘A Arte da Guerra’, afirma:

“O que perdeu a iniciativa é derrotado e o que a conserva, habitualmente ganha.   Por isso, quem quer que seja que esteja numa situação de liderança, necessita de conhecer os seus soldados, a si mesmo e ao inimigo.   Poderá então enfrentar cem batalhas sem conhecer a derrota.”

VIDA

Viver é muito perigoso.  É uma luta contínua que exige enormes investimentos, esforços sem conta e grandes sacrifícios pessoais.   No entanto, bem poucos logram realização e felicidade em suas vidas.  Possivelmente, porque poucos estão conscientes da necessidade de estabelecer planos para a vida, ou em outras palavras, estratégia de vida. Na vida estamos cercados de inimigos, alguns fáceis de identificar, mas os mais importantes e perigosos habitam dentro de nós e, talvez por isso, insistimos em não reconhecê-los. A estratégia de vida vai auxiliar muito na tomada de várias decisões importantes, muitas delas, sem volta.   Porque a vida é uma sequência de escolhas e más escolhas têm uma influência desastrosa em nossas vidas.  A decisão sobre a carreira a seguir pode resultar numa frustração após cinco anos de faculdade.   A má escolha num casamento pode comprometer toda nossa vida, cortando oportunidades de crescimento e realização. Lula fez uma linda campanha, trabalhou ferozmente, mas não deu atenção às suas debilidades e pôs tudo a perder.   Não faço aqui nenhum proselitismo, apenas observo os fatos e os analiso com o propósito de aprender sobre a vida.

Creio que será útil, para exemplificar, relatar uma experiência estratégica em minha vida.

Formei-me em engenharia mecânica e de produção na Politécnica, em 1961, uma década charmosa pelas transformações que ocorreram no mundo.   Minha tese de formatura foi sobre as perspectivas de desenvolvimento da indústria ferroviária no Brasil. Estava convencido de que o transporte ferroviário era muito mais prioritário que o rodoviário e arrolava, com segurança, todos os argumentos, como nossa carência de petróleo, por um lado, e a existência de grandes reservas hídricas a explorar, facilidades na exploração de minério de ferro, a disponibilidade de grandes siderúrgicas e de indústrias mecânica, metalúrgica, eletromecânica com pleno domínio da tecnologia, para construir tudo que uma ferrovia necessita.  Essa atividade, ademais, é grande geradora de empregos para mão de obra de baixa qualificação. Concluí que o transporte rodoviário seria o menos prioritário, pela necessidade de elevados investimentos em rodovias, pela nossa dependência da importação de tecnologia, equipamentos e petróleo. Talvez, o argumento mais convincente era o custo-benefício, pois a ferrovia propicia o transporte terrestre mais barato, principalmente se as extensões a percorrer forem grandes, e o rodoviário, o mais caro. Não tive dúvidas em eleger o setor ferroviário como o de maior crescimento da década.   Cauteloso, fui pesquisar o que estava acontecendo no exterior.   Darei apenas dois exemplos para não tornar enfadonho um assunto por demais técnico.   A Suíça, um país pequeno e montanhoso já tinha a maioria de sua carga transportada por uma invejável malha ferroviária.   O Japão dava os primeiros passos no desenvolvimento de nova tecnologia para as ferrovias, como o trem bala e o de suporte magnético. Minha intuição e análise estratégica conduziram-me à procura de um grupo nacional do setor ferroviário.  Entusiasmado, convenci-os a admitir-me e mergulhei de corpo e alma naquilo em que acreditava.

Estratégia correta?

Na aparência, sim. Em dois anos, já ocupava posição de destaque na hierarquia da organização.

Na realidade, não.   Minha pouca idade e excesso de idealismo conduziram-me a um erro estratégico imperdoável: havia elegido como inimigos os concorrentes do nosso negócio e não reconheci nem avaliei a força do verdadeiro inimigo de todos: a falta de visão e a pequenez de influentes políticos e dirigentes da época. Você já adivinhou, apesar de que lhe pedi para não usar a razão, qual a prioridade que o governo elegeu!

O setor ferroviário ficou abandonado e obsoleto e o Brasil passou a transportar de norte a sul do país, tudo por caminhão, o mais inadequado e caro meio de transporte terrestre. Os governantes destinaram incentivos fiscais para abrigar uma indústria automobilística obsoleta que 30 anos após ainda produzia carroças e agora enfrenta as consequências da globalização. Observe que as demissões que estão acontecendo na Ford, nada têm a ver com o temperamento mercurial do governador mineiro, nem com a flutuação cambial, nem mesmo com a queda das vendas. Leve em conta, apenas, estes dados: a indústria automobilística nacional fez um enorme esforço de atualização, melhorando a eficiência de produção. Em 1990, cada trabalhador produzia 13 automóveis/ano; em 1998, com equipamentos mais atualizados, logrou 36/ ano. Beleza, não? Isso é o que, nos tempos atuais, gera desemprego: investimento na produção. Entretanto, essa era a solução que o Lula prometia na sua recente campanha, para gerar 10 milhões de empregos!!!   As novas fábricas estrangeiras que recém desembarcaram no país, beneficiando-se da abertura dos mercados e de vários incentivos fiscais, totalmente desnecessários, implantaram a capacidade de 235.000 carros/ano, oferecendo 2.110 empregos diretos. Mesmo sem usar calculadora, você já viu que o quociente desses dois números dá mais de 100 carros/ano, por empregado.

O que a Ford pode fazer? É o que está fazendo.   As más escolhas nos cobram sempre. A falta de visão estratégica de muitos de nossos governantes e políticos foi responsável pelo mundialmente famoso “custo Brasil” que dificulta nossa capacidade de competir nesta fase da globalização.

Regras de boa estratégia são flexibilidade, adaptabilidade e revisão contínua.

O Brasil não seguiu o que seria lógico! Eu tinha de encarar essa realidade e mudar.

O DESAFIO DA ESCOLHA

Quem nunca fez uma má escolha na vida?   E quantos foram capazes de refazer suas vidas com uma nova escolha?   Havia chegado a minha vez!

A guinada foi para o mercado financeiro. Estávamos no final da década de 60.  Uma nova legislação havia criado os bancos de investimento.   Para habilitar-me e concorrer, havia que considerar meus pontos fortes e fracos e avaliar os custos e benefícios dessa nova escolha.

A mudança não seria fácil, pois eu teria de jogar no lixo a experiência de oito anos no setor ferroviário. Além disso, tinha família e três filhos com muito apetite.   Foi uma decisão muito difícil e muito semelhante à experiência de milhares de famílias, nos tempos atuais.

Quem tinha sólidos conhecimentos de matemática financeira, tinha lugar garantido na banca e esse era um de meus pontos fortes.   Minha debilidade era a idade e ter de competir com os universitários recém-saídos da faculdade, muitos com cursos de graduação e mestrado e com as matérias bem atualizadas na cabeça.

Desliguei-me da companhia ferroviária onde era diretor e parti para o mercado.   Senti-me como prostituta, oferecendo-me por preços cada vez mais baixos, até encontrar uma oportunidade num banco ainda pequeno, mas dotado de uma direção muito competente, confiável e agressiva.   Aí embarquei por um terço do salário que recebia anteriormente, mas logo evoluí numa carreira plenamente bem sucedida até aposentar-me, após 21 anos de serviços prestados a empresa, que hoje é o maior conglomerado financeiro e industrial do país.

Que lições podem ser tiradas desses exemplos?

O primeiro é que se deve buscar, com determinação, ser senhor de sua vida.  Nunca permanecer numa situação insatisfatória, só porque é cômoda.

O comodismo é o agente destruidor dos impérios e o inimigo número um do comandante de uma batalha.

O segundo, é que para vencer o comodismo é preciso vencer o medo.

Para vencer o medo é preciso saber analisar a situação como um todo, em busca da raiz do medo.

Perguntaram a Confúcio que tipo de homem colocaria à frente de três exércitos.   Ele respondeu: “Não será um homem corajoso bastante para enfrentar-se com um tigre sem a preocupação de morrer. Elegeria um homem inteligente que saiba dominar seus medos, que saiba considerar os obstáculos e perigos com prudência e prefira triunfar pela estratégia”.

O terceiro é vincular-se a uma atividade na qual acredite, na qual encontre uma forma de conciliar a realização profissional com a realização pessoal, no exercício da qual sinta orgulho e prazer.   Então, você terá sempre um trabalho que será uma missão, nunca um emprego.

É preciso ter presente que a vida é dinâmica e nos reserva constantes surpresas. Mas o bom estrategista está sempre preparado para surpresas e essa é a melhor de suas virtudes. Esse será o tema surpresa para outro happy-hour.

 

* * *

  2 Responses to “HAPPY HOUR I”

  1. Adorei esse artigo!

Deixe um comentário seu:

%d blogueiros gostam disto: