jan 252017
 

Há muitos e respeitáveis analistas do mercado financeiro apostando numa maxidesvalorização do Yuan, a moeda chinesa, o que traria, caso efetivada, tumultos nos mercados mundiais como a queda abrupta nas bolsas de valores em todo o mundo, Brasil incluído. Falam até em queda de 20 a 30% o que produziria uma perda de riqueza excepcional.

Darei abaixo o decálogo de motivos que são arrolados para essa previsão e, em seguida, minhas ideias à respeito, que indicam porque não partilho da mesma opinião.

1-Trump declarou várias vezes, inclusive no twitter, que a China é manipuladora de sua moeda.

2-Surpreendentemente, também declarou que o dólar está muito forte e ele quer um dólar mais fraco. Consequentemente, Trump espera que a China deixe sua moeda valorizar mais.

3-Trump colocou em risco a política chinesa de “Uma Só China”. Essa política significa que a China quer que os EUA continuem a reconhecer Taiwan, a província rebelde, como parte do território chinês e não como outro país independente.

4-Trump também quer que a China ofereça seu apoio aos EUA em relação à Coreia do Norte que constantemente ameaça bombardear Nova York ou Washington com bomba nuclear.

5-Trump quer reverter a geopolítica expansionista da China no mar meridional, que disputa como seu território e onde vem construindo ilhas artificiais como descrevi no relatório “Eurásia & TPP”.

6-Trump vem desenvolvendo, desde sua campanha, uma aproximação com o presidente russo, Vladimir Putin, na esperança de ampliar apoio ao seu governo na região da Eurásia.

7-Com uma penada, Trump desativou a participação dos EUA no projeto TPP Trans-Pacific Partnership proposto por Obama, no que sou totalmente favorável e cujas razões tive a oportunidade de explicar em meu relatório Eurásia & TPP.

8-Trump anunciou uma política protecionista, com mercados fechados, ameaçando empresas multinacionais americanas que estão produzindo fora do país com taxas aduaneiras e que implantaria taxas de 45% para os produtos importados da China.

9-Em Davos, neste mês, o presidente chinês Xi Jinping surpreendeu o mundo com um discurso positivo defendendo a economia liberal, mercados abertos, respeito às resoluções da OMC, adesão aos acordos de proteção ambiental, exatamente o oposto do que os EUA estão fazendo e propondo, neste momento.

Tudo que aprendi de estratégia com os chineses se resume em: “Conheça as fortalezas e fraquezas de seu inimigo e conheça as suas próprias. Mostre que é forte onde se reconhece fraco e fraco onde sabe que é forte. Então vencerá 100 batalhas”.

10-Trump não é político, não tem experiência política, mas é um homem de negócios exitoso e sabe negociar. Por isso, vários analistas interpretam que essas medidas que vêm anunciando são apenas cartas de negociação para serem atiradas à mesa em troca de reciprocidades.

Colocadas as principais iniciativas do novo governo americano, tentarei explicar de forma simples e didática as minhas ideias sobre cada item desse decálogo.

1-A China não está manipulando sua moeda. As desvalorizações alardeadas pelos americanos não passaram dos 10% e isso porque o dólar se valorizou demasiado, como é agora reconhecido por Trump, prejudicando as exportações da China para outros mercados, cuja moeda, o Yuan, estava atrelada ao dólar.

2-Na realidade a China não pode valorizar nem desvalorizar sua moeda em função do Acordo de Shangai estabelecido pelo FMI como condição para o ingresso do Yuan na cesta de moedas reserva, a SDR –Special Drawing Rights. Expliquei detalhadamente a abrangência desse Acordo no relatório “Acordo Shanghai(vide foto da cidade). Ademais, o dólar vem se desvalorizando há meses e poderá acelerar mais com as imprudentes afirmações de Trump o que, por si, já favorecerá a China cujo Yuan está atrelado ao dólar. Portanto não há variação cambial entre as duas moedas embora ocorra em relação a maioria de outras moedas, ouro incluso, que se valorizam.

3-Essa questão é inegociável, portanto Trump não obterá com suas habilidades de homem de negócios nenhuma reciprocidade da China nesta questão. Seria o mesmo que exigir que os EUA renunciassem a sua soberania em relação a região da Nova Inglaterra.

4-A China também não pode interferir nessa questão por que qualquer atividade de força provocaria a emigração de milhões de pessoas para a China, através da fronteira no Norte, o que desestabilizaria a população da China com pessoas em estado de extrema pobreza que se alimentam de cascas de árvores.

5-Essa questão está fora de negociação e se forçada poderá desencadear a Terceira Guerra Mundial, tal como previ em meu relatório “Domínio do Mar”.

6-O presidente Russo não é nada confiável, tem interesse na região da Ucrânia onde já desenvolveu uma invasão e foi penalizado pelo Pres. Obama com sanções. Trump quer reverter essas sanções e isso abrirá a oportunidade para novas invasões a outros países que pertenceram à União Soviética e que integram, agora, a União Europeia.

7-Esse projeto TPP do qual os EUA se desligaram agora, tinha como objetivo ampliar a participação dos EUA na região do Pacífico, fazendo frente a expansão da China nessa região. No relatório “Eurásia & TPP”, explico as razões porque também não partilho dessa ideia e previ que os EUA não seguiriam com o projeto, o que se confirmou, agora.

8-Se Trump der seguimento ao seu propósito de taxar as importações da China, esta irá recorrer à OMC e se não tiver apoio, aí sim poderá, em retaliação, efetuar uma maxidesvalorização de sua moeda para estabilizar sua competitividade às novas regras. Certamente, penso eu, não será para agora. A razão é simples: a China vem desenvolvendo um plano secreto que foi objeto de alguns relatórios que publiquei aqui no meu site. Juntamente com a Rússia, pretende abolir o dólar como moeda de reserva predominante construindo um novo sistema financeiro paralelo tendo como moeda reserva para as transações comerciais e financeiras o Yuan, agora a terceira moeda na cesta de moedas reservas do FMI. Com a política desastrosa que se avizinha no governo Trump, se a China tinha um caminho estreito e pedregoso para vencer, agora contará com uma avenida asfaltada e iluminada para desenvolver seu plano. Irá se aproximar da Grã-Bretanha que perdeu com o Brexit o mercado europeu, reforçar ainda mais os acordos com a América Latina, Oriente Médio, África e países asiáticos a serem abandonados pelo novo governo americano. Com essas perspectivas tão positivas e ainda defendendo uma política econômica liberal, por que iria a China provocar a perda de confiança do mundo em sua moeda, implementando uma maxidesvalorização, agora? Racionalmente refletindo, não acredito que isso ocorrerá. (Veja mais em “Trump, seus projetos e a Nova Moeda Mundial”)

Todos os relatórios citados neste artigo podem ser encontrados aqui no meu site.

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  2 Responses to “EUA, CHINA, RÚSSIA E O MUNDO QUE SE DANE”

  1. Dagoberto, como você avalia o impacto da política protecionista do Trump e das outras mudanças geopolíticas no Brasil?
    Abraço,
    Ary

    • Ary, o Brasil exporta muito pouco para os EUA e a política de Trump não nos alcança pela nossa própria falta de importância. Poderemos ser indiretamente beneficiados se soubermos explorar oportunidades de negocios com países asiáticos, China em particular, Rússia e México. Antes, necessitamos nos libertar do peso do Mercosul. Empresas brasileiras que já operam nos EUA poderão ser beneficiadas, caso da JBS, p.ex.

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