Debate com escritores

TEMA PARA DEBATE

 Dagoberto Aranha Pacheco
SP, 21 de Fevereiro de 2012.

Apresentei na Web, num grupo fechado de escritores dos mais destacados da literatura contemporânea, três questões filosóficas como proposta para um debate.

Surpreendentemente, as colaborações foram numerosas e algumas bastante extensas. Fiz um resumo das respostas de cada questão, preservando os nomes dos autores e do site por razões de confidencialidade. Acompanhe abaixo as respostas e meus comentários, no final.

 

1º QUESTÃO: QUAL A IMPORTÂNCIA DE VENDER LIVROS?

—O escritor que não vende se mantém no amadorismo.

—Queremos vender livros para ganhar dinheiro.

—Quero vender livros para ficar famoso, sair da mediocridade.

—Para ficar conhecido, deixar um legado.

—Se um escritor escreve para vender, já está morto na alma.

—O autor que não vende tende a se frustrar com o tempo, pois não é da natureza animal humana insistir em algo que não traz o retorno desejado.

—É felicidade viver de um trabalho que nós amamos fazer e do qual não se pode escapar.

 

2º QUESTÃO: QUAL A IMPORTÂNCIA DE SER LIDO?

—Nessa embasbaquei.

—Todos querem ser lidos para satisfazer o ego. Ser artista é ter um ego do tamanho do mundo.

—Poder compartilhar o fruto da minha imaginação, ideias e pensamentos com os leitores.

—O que me importa é agradar meus leitores.

—Receber feedback dos leitores para aprimorar minha escrita.

 

3º QUESTÃO: O QUE MOTIVA O ESCRITOR A ESCREVER? 

—Se você sente um impulso para escrever do fundo de seu coração, então construa sua vida de acordo com essa necessidade. Sua vida tem de se tornar um sinal e um testemunho desse impulso. (Reiner M. Rilke, enviado por uma escritora).

—Escrevemos porque temos aquele impulso irresistível.

—O fazemos como forma de terapia.

—Como exercício para organizar ideias e ampliar a visão do mundo.

—Dar asas à imaginação e poder compartilhá-la com os leitores.

—Escrever é um impulso irresistível, uma coisa de alma, o resto é consequência. (ser lido, ficar famoso, rico e ser lembrado na posteridade).

—Busco a realização pessoal através de um trabalho que se ama.

—Buscar a superação.

—O prazer de se superar, dar vazão à curiosidade que me insere na busca da perfeição.

 

COMENTÁRIOS

A – Uma coisa é produzir livros, outra é escrever um livro. Produzimos livros quando estamos conectados com o mercado, com a moda, ligados no que os leitores ‘consomem’ mais. Assim são produzidos muitos dos best-sellers. Não há nenhuma crítica a esse proceder, apenas a reflexão filosófica de que esse procedimento não conduz à arte da escrita que está ligada a autenticidade do que o escritor sente e dos impulsos internos que provém da alma. Como bem disse um dos escritores participantes deste fórum, ‘se um escritor escreve focalizado em vender já está morto na alma’. São coisas muito distintas.

B – Se encaramos a atividade literária como arte, então me ocorre comparar o que aconteceu com Vincent van Gogh o genial pintor holandês que influenciou o impressionismo e pós-impressionismo. Durante toda sua vida viveu no ostracismo, rejeitado pelos seus pares e pelos críticos por não estar filiado a nenhuma escola de arte. Conheceu as dores da rejeição e da miséria, contudo nunca abandonou o contato com a força interior que o levava a ver as cores e a pintar de um modo totalmente fora dos padrões da época, daquilo que poderia se o padrão comercial. Vendeu apenas um quadro cujo comprador foi seu irmão. Muitas de suas telas foram vendidas para as escolas de arte onde os alunos faziam suas pinturas sobre as pinturas de van Gogh após pintar toda a tela de branco. Muito mais tarde, algumas dessas telas foram descobertas por restauradores que se aplicaram no trabalho de remover as pinturas superiores para revelar a obra original, hoje comercializada pelas cotações maiores no mundo da pintura. Estaria van Gogh errado? Teria sido melhor adequar-se às tendências de sua época? Vivido com largueza e prazer sendo reconhecido por multidões que nada entendiam de arte? São questões simples que se colocam naturalmente para reflexão e que nos servem de ajuda na condução consciente de nossas vidas.

C – Um tema que não foi colocado por ninguém, mas que me parece estar bem no centro das motivações ocultas, é o tema da morte. Nas preocupações filosóficas a morte ocupa lugar destacado. Os seres humanos não se limitam a conviver entre si, mas também partilham o essencial de suas vidas. Vivemos em pequenos grupos e a morte de um membro representa perda em termos de informação disponível, conhecimento e cooperação potencial. O homem tende a se ver como um ser eterno e é natural que tenha a preocupação de deixar algo de si para a comunidade humana, como forma de continuidade, e o melhor que pode deixar como escritor, é a essência de seu ser, a forma como vê a vida, suas convicções, sua cooperação e sua verdade.

A partir de Nietzsche temos que nos resignarmos a admitir que não há fatos, apenas interpretações. Segundo esse critério, a verdade é o resultado de interpretações concorrentes segundo as tradições culturais e hermenêuticas. Vejam que esse conceito se aplica bem às respostas apresentadas.

* * *

2 thoughts on “Debate com escritores

  1. Olá Dagoberto.
    Participei do debate e deixo um comentário.
    Muito interessante nosso debate. Muitas opiniões e respostas intrigantes. A origem da arte, este impulso de sair de si mesmo e expressar seus sentimentos, quer na escrita, pintura, enfim todos os tipos de manifestaçâo, continua um mistério.
    Parabéns pela iniciativa.
    beijo grande

    1. Prezada Vera.

      Foi uma experiência interessante mesmo. Sua participação foi muito importante e significativa. Obrigado pelas palavras carinhosas de incentivo.

      Abraço grande,

      Dagoberto

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