set 112017
 

Os políticos, os economistas e empresários, todos sem exceção, pregam o crescimento econômico como a solução para todos os problemas. Há uma compulsão pelo crescimento que tomou conta das últimas gerações as quais creem, com grande convicção, que o crescimento econômico, da produção, dos recursos e dos salários podem e devem permanecer crescendo indefinidamente.

Se você, caro leitor e leitora que me dedica seu tempo também está convicta disso, deverá tomar conhecimento dos dados que reuni para comprovar o contrário, que é a tese proposta no título deste artigo.

Em primeiro lugar vamos afinar nossa visão numa perspectiva maior e mais ampliada, como se estivéssemos a observar os fatos de longe.

Nossa geração nasceu e cresceu num mundo em franco desenvolvimento e, por isso, considera que o crescimento continuará sem interrupção, apesar de algumas oscilações de ajuste. Isso é uma ilusão e pretendo demonstrá-la, em seguida. Essa ilusão se constitui num grande problema porque construímos estilos de vida, fizemos investimentos, assumimos dívidas e criamos várias benesses sociais, como planos de previdência, estabilidade no emprego, planos habitacionais e outros, na expectativa de que o crescimento continue indefinidamente.

O crescimento que observamos no mundo não é uma regra, é uma exceção. Aconteceu no século XX e esse legado criou a ilusão do crescimento perpétuo.

Antes do século 19º o progresso global era estável. Os pais não esperavam que seus filhos tivessem um estilo de vida melhor que o deles. As roupas não mudavam de estilo nem de uma geração para outra, não havia modas e consumismo.

A existência do homo sapiens remonta a 200.000 anos e a civilização começou a ocorrer há 6.000 anos. Dentro desta perspectiva, percebe-se claramente que o crescimento econômico é um fenômeno bem recente e ainda de curta duração. O fenômeno do crescimento ocorreu na segunda metade do século 19 e evoluiu exponencialmente no século 20.

O crescimento é medido por um índice. Por exemplo, posso dizer que meu neto, com 80 cm de altura cresceu no ano anterior 4%, ou seja, 3,2 cm. Se mantida essa taxa de crescimento constante, quantos anos levará para que sua altura dobre?

Uma operação envolvendo cálculos logaritmos encontrará a resposta 18.

Uma outra forma muito simples, mas não muito precisa é usar a regra 72 que consiste em dividir 72 pela taxa de crescimento.

Assim: 72/4 = 18 anos, tempo necessário para o garoto dobrar de tamanho, atingindo 1,6 metros. Se a taxa de crescimento for de 9% a.a. levará apenas oito anos para dobrar de tamanho. (72/9) = 8 anos

Na natureza há sempre limites para tudo. Há um momento no qual o crescimento cessa. As árvores param de crescer, os recursos naturais vão diminuindo, as espécies se extinguem, o ar e a água vão se tornando mais escassos e a população vai reduzindo sua taxa de crescimento até iniciar uma reversão, um decréscimo como está ocorrendo agora mesmo.

O mesmo fenômeno ocorre com o crescimento das empresas e da economia em geral e, portanto, com o PIB dos países.

Para entender a dinâmica dos fenômenos que envolvem o crescimento, precisamos analisar o que produz o crescimento e quanto desses recursos estão disponíveis de forma indefinida.

O crescimento econômico de um país depende essencialmente de quatro fatores principais:

A – Disponibilidade de matérias primas e energia em condições inesgotáveis.
B – Crescimento da massa de trabalhadores.
C – Crescimento da produtividade.
D – Capital próprio ou complementado por empréstimos (dívida).

Todos sabemos que a condição A não é sustentável. Basta ver que a madeira, praticamente está em vias de esgotamento. A água potável está em torno de 3% da água do planeta em condições de uso pela população. Já tivemos em 2016 uma grande crise de abastecimento e nossas reservas estão se esgotando rapidamente por causa da destruição das florestas. A Mata Atlântica já totalmente extinta e a Floresta Tropical Amazônica em vias de. Peixes e alimentos naturais estão cada vez mais escassos. Carnes de gado e frango estão sofrendo embargos em todo o mundo pelo uso incorreto de fertilizantes cancerígenos nas rações, aplicação desmedida de hormônios para acelerar o crescimento dos animais (sempre a mesma compulsão) vacinas, etc…

O petróleo está cada vez mais profundo, como no pré-sal, exigindo dispendiosas tecnologias para explorá-lo e subsídios governamentais para tornar a exploração competitiva. Quanto mais recursos na exploração, maior o preço para o consumidor ou produto final e isso é um fator que limita ou inviabiliza a utilização de uma matéria prima mesmo que existente em quantidades razoáveis, além de fatores ecológicos decorrentes da exploração sem sustentabilidade.

Enquanto escrevo, a TV mostra o drama da população da Flórida fugindo do Irma, o poderoso tufão que está dando o troco da natureza pelos maus tratos que tem sofrido, os quais estão produzindo o aquecimento global, que as autoridades negam a existência.

O segundo fator B é o crescimento dos trabalhadores envolvidos na produção. Estamos neste exato momento testemunhando a necessidade da reforma da Previdência. Durante os anos de grande crescimento os governos criaram leis benevolentes demais e assumiram compromissos financeiros permanentes que só teriam sentido se a massa de trabalhadores crescesse continuamente. O que está acontecendo é que os empregos estão desaparecendo, a massa de desempregados é enorme, muito maior do que a indicada pelas estatísticas e com o avanço das tecnologias esses desempregados não terão a mínima chance de voltar ao trabalho formal por falta de conhecimento, formação e adequação aos novos requisitos.

Estamos diante de uma pirâmide de Ponzi na qual um número cada vez menor de trabalhadores têm de contribuir com a aposentadoria de cada vez maior número de velhos aposentados e cuja expectativa de vida não pára de aumentar.

Como o gráfico acima mostra claramente, apenas um país, a Índia, tem uma taxa de fertilidade acima de 2, assim mesmo com tendência de queda livre. A fertilidade abaixo de 2 significa que o tamanho da humanidade vai decrescer, o que na realidade já está acontecendo em vários países mais desenvolvidos e mais produtivos. A qualidade técnica dos sobreviventes vai decrescer muito e rapidamente com aumento da pobreza, com pessoas de insuficiente ou nenhuma educação, incapazes de prover a própria vida num mundo moderno e globalizado.

Então não tenham dúvida, a reforma da Previdência vai sair, se não neste governo, no próximo. Caso contrário a economia do país implode e teremos uma revolução civil.

O terceiro fator C que produz o crescimento é a produtividade. Está comprovado por diversas pesquisas e dados que os formidáveis avanços da tecnologia nos últimos tempos têm contribuído apenas marginalmente para o aumento da produtividade.

As administrações das empresas têm registrado grande perda de tempo de horas de trabalho com seus funcionários utilizando celulares e computadores para responder e-mail pessoais, se distrair no Facebook ou com games e efetuando compras online.

A dirigente do IMF (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde disse que outra década com fraco crescimento na produtividade do trabalho poderá afetar seriamente e de forma negativa o atual padrão de vida global.

A produtividade significa fazer mais com menos recursos e o que ela tem feito é dispensar cada vez mais a utilização da mão-de-obra, um dos fatores geradores do crescimento. A substituição de mão de obra por máquinas produziu, num primeiro momento, um grande aumento da produção, por tornar mais baratos os produtos finais.

Vejam o que está acontecendo agora: o petróleo caiu de $120 dólares, o barril, para $40 dólares. Vários analistas emitiram opiniões erradas, que tal fato produziria uma grande economia para as famílias que iriam gastar as sobras em viagens, restaurantes, roupas e acessórios, acelerando a economia. Ocorreu o contrário, os preços dos imóveis despencaram, os alugueis baixaram, os setores de varejo entraram em crise e as economias entraram em depressão ou em recessão.

Por quê? As empresas produtoras de energia fecharam, às centenas, despejando seus funcionários no desemprego os quais sem remuneração deixaram de consumir, o governo arrecadou menos impostos enquanto os débitos continuaram crescendo e é esse o quadro que observamos atualmente, não apenas no Brasil, mas na Europa, EUA, Japão e nos países do BRICS, com exceção de China e Índia que se prepararam para estes novos tempos.

Também observo que as grandes corporações não estão investindo seus lucros nos próprios negócios. Ao contrário, os estão empregando em programas de recompra de ações com o objetivo de ampliar o lucro por ação e, com isso, o aumento nas cotações das empresas o que, consequentemente, amplia os bônus dos executivos. Também refinanciam seus débitos e praticam as Fusões & Aquisições. Essas atividades não são condenáveis e podem contribuir, no longo prazo, para o fortalecimento da empresa, mas nenhuma delas dará um alento à produtividade, como investir em Pesquisa & Desenvolvimento.

Finalmente, o último fator D para garantir o crescimento econômico é o capital disponível e a disponibilidade de créditos. Ocorre que o modelo adotado pelos governos foi o de garantir crescimento econômico com benefícios que rendem votos e perpetuação no poder. Esse modelo exige muita dívida e os governos estão mais endividados do que dispõem de capital e renda para quitar seus débitos. Então o default não é questão de SE, mas de QUANDO.

Durante as décadas de 50-60, um dólar de débito era suficiente para produzir 1 dólar de produção. Atualmente, 1 dólar de débito produz apenas um quarter (0,25 cents) de produção. A situação é insolúvel e como os gastos governamentais são fixos devido aos compromissos assumidos por lei e que não podem ser removidos, caminhamos para um grande desequilíbrio financeiro com instabilidades sociais gravíssimas num mundo que não terá mais condições de crescer. Cedo ou mais tarde vamos deparar com a situação:

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  2 Responses to “CRESCIMENTO ECONÔMICO NÃO TEM MAIS SUSTENTABILIDADE”

  1. Infelizmente voce them razao, Dagoberto. Somente disc or do do seu “otimismo” com relacao a China e India. Veja artigo de Michael Pettis: is china’s economy growing as fast as china’s GDP?

    • Olá Eduardo, quem é vivo sempre aparece. Agradeço seu comentário, mas quanto à China há muitas noticias e relatórios desmerecendo a China, apontando que ela vem reduzindo suas reservas nos EUA para sustentar sua moeda e outras interpretações equivocadas. Da China pouco se sabe. O importante é que há dois anos escrevi um ensaio, resultado de minhas pesquisas, sobre o Plano Secreto da China, disponível no meu site. Quase ninguém deu importancia, entretanto o Plano está sendo implementado agora mesmo, exatamente como eu previ que seria. A mídia, agora acordou e o dólar segue desvalorizando, também como previ que seria por força desse citado plano. Abraços a vc e Mônica.

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