Crash no Mercado de Ações da China

chinastocks780O que você precisa saber para compreender o que se passa nos mercados financeiros da China e que vão comprometer o nosso mercado e todo o mercado ocidental.

Deng Xiaoping, o anterior líder chinês, arquivou o livrinho vermelho do atraso adotado pelo seu antecessor Mao Tsé-Tung em sua chamada Revolução Cultural, um desastre de triste memória.  Foi o gestor do milagre chinês do século XX assumindo o governo do país empobrecido, na época mais atrasado economicamente que o Brasil, de planejamento centralizado e economia basicamente rural e o transformou no país vibrante, orientado para exportações e produção com alto valor agregado que é hoje. No seu governo, a economia do país cresceu a taxas astronômicas em relação aos seus pares ocidentais e numa única geração a China se transformou na segunda maior economia do planeta e no detentor do maior comercio internacional, superando os EUA.

Todo esse extraordinário progresso bem-sucedido e orientado pelo governo central é muito recente e as estruturas de mercado, como o sistema bancário, mercados financeiros, bolsas de títulos e valores são muito novas e carecem de cultura incorporada para ser inserida nos mercados globais. A China é detentora de uma cultura milenar de 20 séculos que se comparada com a da América, de pouco mais de 500 anos, dá uma ideia do potencial dessa cultura asiática em transformar-se e recriar-se, como já deu provas em pouquíssimo tempo, na produção econômica e na absorção de modernas tecnologias.

Tendo-se em conta esse fato, não se pode dar guarida às informações de imprensa que minimizam a China como concorrente, pelo seu suposto despreparo na participação e gestão dos sistemas operacionais no mundo financeiro globalizado.

Na verdade, os chineses têm cometido muitas falhas e a elas me reportarei ao longo deste artigo, mas eles são muito preparados para aprender rápido com seus erros, o nível de educação no país é elevadíssimo, como minha filha Ligia, em recente viagem de pesquisa educacional, teve oportunidade de constatar, os alunos têm um respeito profundo pelos professores, que o são de verdade e há um respeito e obediência à hierarquia.

Entremos, após esta introdução que me pareceu necessária, na questão dos mercados e vamos mostrar o que a imprensa explica de forma equivocada.

As ações denominadas em Yuans e negociadas nas bolsas de Shenzhen e   Shanghai são chamadas de A-shares; as negociadas em Hong Kong são chamadas H-Shares. Até o ano passado, não havia nenhuma conexão entre as bolsas e as cotações das ações de uma mesma companhia apresentavam variações grandes no mesmo dia, exatamente porque não havia como se fazer a arbitragem entre elas. Desde o final do ano passado, as bolsas de Shanghai e Hong Kong estão conectadas e, então, foi aberto o mercado de Shanghai para investidores estrangeiros.  A Bolsa de Shenzhen está programada para ser conectada às outras duas bolsas no final deste ano. Estou explicando isso para mostrar como esse mercado é muito recente na China e está dando seus primeiros passos.

Em consequência da abertura do mercado chinês para os investidores globais, houve um fluxo grande de ‘hot money’ para aquele mercado, elevando as cotações num verdadeiro bull market.  A alta continuada dos preços atraiu milhares de chineses para o mercado de ações e o governo, para entusiasmar ainda mais, liberou os brokers para emprestarem dinheiro, sem limites, para os clientes comprarem ações. Então foi aquela festa, todo mundo comprando ações com endividamento, pagando os empréstimos com o lucro e o guardando para mais ações. Por falta de experiência, achavam que o céu era o limite para as cotações. Minha filha, andando de taxi, notou que o taxista checava seu celular com frequência para ouvir as cotações do mercado, segundo informou o intérprete que a acompanhava.  Segundo estatísticas oficiais, 80% dos empréstimos feitos pelos brokers era para investidores individuais (retail investors) e que 2/3 desses investidores possuíam diploma de ensino médio (high-school).

Segundo as mesmas estatísticas, 200 milhões de chineses têm uma brokerage account e esse número excede em vários milhões o número de membros do Partido Comunista, avaliado em 90 milhões.  Segundo o PNB Paribas, cerca de 170 mil novas contas são abertas em cada dia útil, o que representa mais de 10 vezes a média de 2014.

Buying stocks is buying the Chinese dream” publicava a mídia estatal, imitando o sonho americano. A impressionante alta dos mercados era chamada “Uncle Xi’s bull market” como se fosse um presente do atual Líder Máximo Chinês, Xi Jinping.

No final do ano passado muitos IPOs (Inicial Public Offering) vieram para o mercado e se tornaram muito populares porque resultavam em enormes lucros, alguns feitos da noite para o dia. Isso criou enorme demanda por mais IPOs o que resultou numa drenagem de recursos para essas operações prejudicando o mercado normal. Muitos dos que me leem devem se lembrar que no início da década de 70 o mercado brasileiro, ainda incipiente, apresentou o mesmo fenômeno e, no auge da farra, chegou a ser lançado o IPO de uma empresa com enormes promessas chamada MERPOSA, a qual apresentou enorme acolhida com reservas efetuadas pelos incautos investidores. Na verdade, tratava-se de uma brincadeira de alguns operadores a qual se revelou, quando o significado do nome dado à empresa foi conhecido.

A quantidade de empréstimos dos brokers aos seus clientes dobrou em junho em relação ao início deste ano. Foi quando as autoridades chinesas começaram a ficar preocupadas com o sobre aquecido mercado de ações e com a provável bancarrota que ocorreria se o mercado cedesse, já que estava fundado na alavancagem dos empréstimos. Foi aí que alguns burocratas, com pouca familiaridade com o funcionamento do mercado resolveram, sem me consultar, limitar a capacidade de empréstimos dos brokers de ilimitada para 4 vezes o capital líquido. Para se adequar à nova regra, foi necessário efetuar o cancelamento de grande parte dos empréstimos e isso se faz vendendo as ações em carteira, à mercado.  Essa foi a causa que desencadeou o crash na bolsa em junho passado.  Ao mesmo tempo, o governo baixou a taxa de juros para reduzir a pressão sobre os débitos e liberou os investidores a utilizarem suas casas como garantia colateral para seus empréstimos.  Conseguiram, afinal, esfriar os ânimos através da perda de confiança coletiva no atual sistema.

Nos EUA, o governante não tem muito controle sobre os preços das ações. Pres. Obama não pode impedir o público de vender ações. (Líder Xi, pode); Pres. Obama não pode ordenar aos Brokers que comprem ações. (Líder Xi, pode e faz); Pres. Obama não pode ordenar ao Federal Reserve que financie empréstimos para investidores comuns para que comprem ações. (Líder Xi, pode); Pres. Obama não pode proibir IPOs. (Líder Xi, pode).

Para entender o mercado chinês é preciso considerar que lá, o mercado é um instrumento de política do governo e não um mercado livre onde as decisões pertencem aos investidores e players do mercado segundo regras específicas estabelecidas pelas Agências Reguladoras.

Deixe você também seu comentário: