Atualizando ‘A Guerra do Petróleo’

Muitos têm me perguntado se é hora de comprar Petrobrás. Respondo que não.  Outros têm a curiosidade de saber porque o petróleo ficou tão barato? Respondo que é uma longa história. Hoje resolvi conta-la.

Guerra do PetróleoJá mencionei sobre o perigo de default de trilhões de dólares no mercado de bonds, emitidos para financiar a exploração e desenvolvimento da energia extraída das rochas de xisto com a chamada tecnologia fracking.  Esses bonds foram emitidos na suposição de que o preço do petróleo permaneceria na faixa de $ 80 – $120, por barril. Com o óleo negociando atualmente na faixa de $40 – $60, 50% abaixo do preço estimado no projeto de exploração, é fácil de se prever que ao longo de 2016 muitos desses bonds deixarão de ser honrados.  A maioria das empresas de petróleo envolvidas nessa exploração nas rochas de xisto são muito endividadas e alavancadas. Como a produção foi mais exitosa do que se esperava, a extração de petróleo nos EUA aumentou de maneira extraordinária. Esse país passou de importador a exportador importante, afetando diretamente o Oriente Médio, especialmente a Arábia Saudita. Esta reuniu-se com os integrantes da OPEC que resolveram aumentar a produção, apesar da queda de preços ocasionada pelo excesso mundial de oferta do produto num mundo em recessão e com menor demanda. Por que tomaram essa decisão aparentemente irracional? Por duas razões: a primeira para não ceder mercados aos americanos e a segunda para aniquilar com a emergente indústria do petróleo de xisto. Estava declarada A Nova Guerra do Petróleo.

Em meados de 2014 haviam 1.600 plataformas de petróleo operadas por muitas empresas, a maioria se financiando através de dívida. Com a queda abrupta dos preços, muitas delas não tiveram condições de prosseguir e tiveram de vender seus equipamentos e instalações com grandes descontos, chegando estes a 90% do investimento inicial. As empresas bem estruturadas e operando com capital próprio tiveram a oportunidade única de ampliar e crescer com aquisições, aumentando enormemente a produção com reduzido capex, ou seja, com menor gasto de capital.

Enquanto os originais operadores tinham custos de $70 a $80 p.b., baseado em seus custos de capital, os capitalizados operadores puderam reduzir seus custos de exploração a $15 ou $20 p.b., devido à enorme redução de seus capex. Para terem uma ideia do que isso representou, em maio de 2015 haviam apenas 600 plataformas em operação, uma redução de 1.000, em relação a 2014, mas a produção continuou crescendo devido a maior eficiência e a novos métodos do qual me ocuparei em um minuto mais.

Esta situação é má notícia para a Arábia Saudita porque significa que os novos produtores poderão sobreviver lucrativamente no atual cenário de custos e preços.

O Irã, após ter as sanções que vinha sofrendo dos EUA e seus aliados suspensas pelo presidente Obama, entrou firme no mercado de petróleo para reorganizar sua economia, em frangalhos.

Com muita produção num ambiente recessivo, os compradores esperam mais para comprar porque creem que os preços continuarão a cair. Daí se pode esperar que os baixos preços de petróleo e gás continuarão assim por longo tempo podendo se estender por todo o próximo ano e boa parte de 2017.

Os preços baixos da energia se mantendo estáveis por longo período têm suas vantagens, pois tornam o custo do transporte mais barato, as passagens aéreas ficam mais atraentes incentivando o turismo, pois 40% do custo de operação de uma aeronave provém do consumo de combustível, fretes dos navios e caminhões ficam mais acessíveis barateando o produto final que chega ao consumidor. A inflação fica mais controlada, apesar da baderna fiscal e da impressora de papel moeda que opera dia e noite.  Esta é mais uma razão porque acho que o Federal Reserve não aumentará a taxa de juros neste ano de cenário recessivo, como vem anunciando e causando volatilidade nos mercados de títulos e valores.

A tecnologia da exploração de petróleo e gás das rochas de xisto tem avançado enormemente a ponto de os técnicos considerarem os procedimentos de alguns anos atrás como absolutamente arcaicos. Atualmente, o desenvolvimento da técnica recentemente introduzida com o uso do proppant, que são pequenas esferas, como pedregulhos naturais ou feitos de argila, as quais são injetadas com água sob altíssima pressão nas rochas de xisto, nos tais poços horizontais. A água rompe as rochas que são impermeáveis e as esferas penetram nas fendas e não permitem que as rochas se fechem novamente, retendo o gás e o óleo. Como resultado, a produção aumentou extraordinariamente porque as fendas permanecem abertas deixando fluir o óleo e o gás livremente, por muito mais tempo. Por isso, apesar da queda de 60% no número de plataformas em operação, a produção segue crescente e o custo do barril declinando para níveis que tornam economicamente viável a exploração, mesmo aos preços atuais.

Com essa guerra interminável um novo negócio está explodindo, o da fabricação de tanques para reserva e estocagem de petróleo. Alguns supernavios cargueiros já permanecem ancorados no mar, abastecidos de petróleo ou gás liquefeito, o denominado LNG, para entregar o produto onde seja solicitado, com rapidez.

Então, sempre em qualquer crise surgem oportunidades. Se muitos choram, outros lucram vendendo lenços.

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