ARÁBIA SAUDITA E A SECRETA BOMBA FINANCEIRA

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ARÁBIA SAUDITA – O que ainda não contei.

Há cinco anos atrás, encontrei-me com um velho amigo argentino, executivo da sucursal de um grande banco europeu e residente em Nova York.  Fomos comer um brunch no restaurante Balthazar, em pleno Soho, e entre vinhos e saborosa comida discutimos a situação da economia americana a qual acompanho de perto, há bastante tempo. Meu interlocutor estava muito otimista e comentou que os EUA estavam desenvolvendo uma nova tecnologia ligada ao setor energético que era tão rentável que seria capaz de pagar, em 10 anos, a totalidade da dívida nacional. Disse-me que se tratava de um quase segredo de estado e que iria colocar a OPEP de joelhos.

—Nesse caso, esse “segredo” deve estar relacionado com o petróleo e, se me permite a intromissão, com as pesquisas relacionadas às rochas de xisto, estou certo?

Ele tentou disfarçar a surpresa e acrescentou que se tratava de segredo para o grande público e para a mídia em geral. Acrescentou que, segundo suas reservadas informações, as pesquisas estavam adiantadas e que logo os EUA se tornariam o maior produtor de petróleo do mundo e grande exportador, também.

—E como ficam os compromissos deste país com a Arábia Saudita em relação aos acordos firmados por Nixon, os quais estabeleceram a comercialização do petróleo em dólares e, em contrapartida, a garantia de defesa bélica contra os inimigos da realeza saudita, por parte dos EUA?

—Você tocou no centro da ferida e é aí que reside a importância do segredo, pois a notícia antecipada do que irá acontecer poderá criar dificuldades políticas e reações internacionais, antes da hora apropriada.

Perguntei ao amigo porque ele estava convicto de que essa nova situação seria a redenção econômica dos EUA. Ele me respondeu que o governo e muitos analistas estavam convencidos de que a grande produção que os EUA alcançariam em poucos anos, ao preço de US$120, o barril, iria liquefazer a dívida e tornar a economia americana muito mais competitiva.

—Uhmm! —Sorvi um gole da nova taça de vinho que me foi servida e que estava deliciosa, pelo que me recordo, e durante um prolongado silêncio, enquanto apreciava a comida, deixei que as ideias ficassem mais claras.

—Meu caro, acho que a coisa não será fácil como imagina.  Os sauditas não deixarão barato e o mundo está em pleno declínio, após a grave crise de 2008, e não haverá demanda para tanto petróleo. Acho mesmo que o preço possa cair de forma dramática e se isso ocorrer poderá haver uma quebradeira no setor energético.

—Isso já está considerado, mas a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, sempre tem reduzido a produção para manter estável o preço do petróleo.

—Ponha-se no lugar do rei Abdullah—retruquei—será que ele recomendaria a redução da produção para ceder mercados ao inimigo EUA? De modo algum, creio que quando o segredo for revelado e a produção nas rochas de xisto estiver iniciando, se eu fosse ele, iria ordenar o aumento da produção para sufocar a nascente indústria americana.

—Você está sendo pessimista—disse ele.

—Realista, meu caro—espere os fatos e verá os resultados. E espero que não esteja concedendo excessivo crédito para esse setor.

Então nos serviram um Browne aquecido com sorvete de creme e a conversa ficou mais amena.

As mudanças na Arábia Saudita

O anterior rei Abdullah morreu em janeiro. Seu sucessor, Rei Salman, assumiu o trono numa ocasião em que as tensões com os EUA não poderiam estar mais elevadas. O povo saudita está esperando que seu novo rei introduza novas regras para sair da saia justa que os EUA impuseram ao país, inteiramente dependente das receitas do petróleo.

Acredito que o novo Rei Salman que já demonstrou ser proativo, bom administrador e com ideias independentes, em breve anunciará sua decisão de juntar forças com a China para começar a comercializar petróleo fora do US dólar e aderir ao Yuan, como quer a China, hoje a maior importadora mundial de petróleo, para pagar todas suas importações de óleo em sua própria moeda.

A Arábia está em pé de guerra com os EUA e não é sem razão, pois o projeto de exploração do petróleo e gás das rochas de xisto elevou os EUA ao ranking de maior produtor de petróleo, passando de fiel cliente importador a seu principal competidor nas exportações. Essa situação tirou da OPEP o conforto em que viveram durante quase cinco décadas. A Arábia Saudita tem o petróleo como sua única receita e oferece a seus cidadãos muitos benefícios para mantê-los acomodados. Importa quase tudo, alimentos, produtos domésticos, carros, medicamentos, etc. Com a redução no preço do petróleo, que caiu para um terço de seu valor, a moeda do país se desvalorizou e, consequentemente, as importações ficaram ainda mais caras, uma fórmula explosiva: receitas em baixa e custos para cima.

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O gráfico acima mostra o extraordinário aumento da US produção de óleo, atingindo 12,5 milhões de barris/dia.

O gráfico, a seguir, deixa claro o estrago que a excessiva produção de petróleo, num mundo em recessão, ocasionou nos países produtores, especialmente a Arábia Saudita, a mais prejudicada. Essa é a razão pela qual os produtores da OPEP estão raivosos com os EUA e prometem uma arrasadora retaliação.

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A questão em jogo pode ser vista na seguinte perspectiva: as nações estrangeiras em todo o mundo mantêm algo como US$ 6,2 trilhões em US Dólar como suas reservas, aplicadas em títulos do tesouro americano e em espécie. Suponha que se essas reservas, de repente, não sejam mais necessárias para a comercialização do petróleo e outras commodities, em dólares, como é atualmente, esses países não terão mais necessidade de mantê-las na moeda americana. De outro modo, irão necessitar de uma correspondente quantidade de Yuan e será essa mudança de regras que o povo saudita espera que seu Rei aprove.

Se o Rei Salman der sua aprovação ao esquema proposto pela China, para substituir o petrodólar pelo petroyuan, vamos assistir ao maior crescimento das reservas mundiais em Yuan e a consequente revoada de dólares dos estrangeiros para os EUA. Para que isso aconteça, a China já firmou contratos de swaps, para converter dólares em Yuan, com mais de trinta países da Eurásia, da América Latina e, acredite, com países ocidentais.

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O gráfico acima mostra o declínio da receita, em dólares, oriundas das exportações do conjunto dos países da OPEP. O processo de substituição do dólar por Yuan está em curso.

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Acima vemos o crescimento do protagonismo da China na comercialização de petróleo.

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Pela primeira vez, em 16 anos, a exportação líquida de capital tornou-se negativa, o que quer dizer que a importação de capital está positiva, ou seja, o processo que mencionei acima da revoada de dólares dos países estrangeiros para os EUA, já começou.

Para que entenda apropriadamente o que isso significa e a importância que tem, considere o seguinte: os EUA têm uma dívida impagável; para fazer frente a essa situação o Tesouro imprime moeda sem parar; todo esse excesso de dinheiro vai para o exterior cujos países estavam ávidos para adquirir dólares para pagar suas importações. Essa situação está mudando de forma definitiva.  Agora, se os EUA continuarem a imprimir moeda de vento, elas ficarão no país, aumentando perigosamente a base monetária e produzindo inflação. Os próprios cidadãos americanos vão preferir comprar moedas de outros países (importar capital) para proteger seus patrimônios. Essa convergência de interesses poderá levar o dólar ao colapso. Prevendo o que está para ocorrer, o FED vem tentando, há um ano, ainda sem sucesso, a elevar a taxa de juros interna. Os propósitos são: 1- conter antecipadamente a inflação que o crescimento da base monetária provocaria; 2-melhorar os rendimentos de seus títulos de dívida para atrair compradores estrangeiros.

Considere apenas estes dois números: agora mesmo, todo o dinheiro físico em circulação dentro dos EUA totaliza US$ 2,9 trilhões; as nações estrangeiras detêm, como suas reservas e aplicações em títulos do Tesouro, US$ 6,2 trilhões.  Se existe a possibilidade de que as empresas estrangeiras não venham mais a necessitar de dólares, essa montanha de dinheiro passará da conta dos países para o Tesouro americano, intercambiado por outras moedas através dos contratos de swaps. Isso poderá triplicar a quantidade de moeda disponível dentro dos EUA e terá o efeito de explodir como uma bomba atômica.

Um choque monetário dessa magnitude poderá conduzir para um cenário nebuloso de graves consequências para a América: inflação, queda no valor do dólar, perda de substancial poder de compra, produtos importados como alimentos, eletrônicos, carros, drogas medicinais, poderão ficar muito mais caras. As importações se reduzirão, ocasionando um efeito dominó em vários países exportadores. Se os preços sobem, as taxas de juros sobem e o dispêndio do governo sobe também e a impressora de moedas irá trabalhar mais e mais criando uma armadilha da qual será difícil escapar.

Para você entender a magnitude do problema ao qual estou me referindo, você necessita entender como o governo americano se financia.

Atualmente, o país conta com uma certa quantidade de receita proveniente dos impostos e taxas e de outro lado, outra quantidade de despesas e gastos que atualmente são bem maiores que a receita.

Para cobrir o déficit, o governo contrata empréstimos de várias maneiras que não importa discutir aqui, mas são compromissos assumidos que vencerão um dia e terão de ser honrados.

Nas últimas décadas, essa situação não constituiu um problema sério. Cada ano são emitidos cerca de US$ 900 bilhões (é quase 1 trilhão, por ano). Desse total:

  • 51% são comprados por investidores estrangeiros.
  • 37% são comprados pelo próprio governo, em suas várias instituições.
  • 12% são compradas por cidadãos.

O comprador estrangeiro que já dispõe de US$ 6,2 trilhões, compra títulos do Tesouro e, portanto, financia os débitos americanos e o faz, não para ser prestativo, não por que acha seguro, mas porque necessita de reservas em dólares para poder pagar suas importações e dívidas em qualquer país do mundo. É isso, como já expliquei em ensaios anteriores, o que faz dos EUA um país diferente.

O que acontecerá se esses países estrangeiros, por uma mudança de regras em escala mundial, como está prestes a acontecer, não necessitar mais de reservas em dólares para seus pagamentos?  Veja que esse é o caso da China, como expliquei em meu ensaio anterior, Mercados, De Olho no Futuro. Ela, que estava bancando sozinha os débitos americanos com US$ 5 trilhões, está vendendo os dólares, reduzindo suas reservas numa velocidade espantosa, a base de US$ 900 bilhões/ano. E o que farão os demais países, especialmente os importadores de petróleo e de outras commodities?  Venderão os títulos do tesouro americano, aquele mesmo que os brokers asseguram que têm risco zero, mas que perderão valor de mercado, e o farão para comprar petroyuan e poder assim participar do novo sistema financeiro internacional que está sendo montado pela China. E o que farão os países integrantes da OPEP? Eles venderão o seu petróleo para a China, hoje o maior importador mundial, e receberão na moeda Yuan, com a qual iniciarão a formação de uma nova reserva. Naturalmente, pagarão suas importações da China e de outros países integrantes do novo sistema em Yuan e, para isso, trocarão seus dólares das reservas americanas por Yuan, através de swaps operados por mais de 30 países. Como perceberam, as reservas americanas só perdem e deixam de ganhar, em quaisquer situações.

Os Treasures perderão valor de mercado e os aposentados que dependem da renda desses títulos ficarão na miséria.

Conversei com alguns especialistas nesta área para ver o que achavam destas ideias. Alguns concordaram comigo, mas outros apresentaram argumentos irrefutáveis do seguinte tipo: os americanos são muito criativos e sempre, em situações de dificuldade, deram a volta por cima.

Não levaram em consideração que há mudanças de paradigmas que nunca ocorreram na história. Algumas ideias mencionadas merecem ser explanadas, embora nenhuma me pareça boa:

1–Continuar emitindo dinheiro de modo a inundar o mercado com dólares que provocarão inflação, o dólar perderá valor e isso representará redução substancial nos salários sem as travas trabalhistas e liquefação da dívida impagável num processo de socialização do prejuízo. Distribuir dinheiro para a população jogando-o de helicópteros, o que fará que as pessoas consumam mais e imediatamente, antes que o dinheiro perca mais valor e isso fará girar a roda da economia, voltando tudo ao normal.

2–Aumentar dramaticamente a taxa de juros para atrair capitais do exterior e simultaneamente não deixar a inflação perder o controle.

Há uma terceira e essa é minha. Tive bastante experiência com troca de moedas no Brasil, na Argentina e depois na Europa com a troca de moedas dos países membros da União Europeia pelo Euro.  Creio firmemente que o dólar passará por uma crise grave de perda de confiança.

Uma solução plausível seria o FMI lançar uma nova moeda mundial e conversível que esteja lastreada em uma cesta de moedas como a da SDR, formada pelos atuais países integrantes. Essa moeda estaria bancada pelos PIBs dos países mais desenvolvidos e, obviamente, restabeleceria a confiança internacional no Sistema Financeiro. O dólar naturalmente fará parte da composição dessa nova moeda, mas perderá a hegemonia que desfruta hoje e terá de competir com a China e demais integrantes num sistema compartilhado. O país que tiver uma política financeira frouxa perderá participação nas revisões periódicas da cesta e os que apresentarem políticas fiscais mais confiáveis aumentarão sua participação e influência mundial. Um incentivo a realização de políticas saudáveis focadas no crescimento econômico.

Pronto! Agora você entende porque os dirigentes do FED querem aumentar a taxa de juros, quando atualmente, não transparece nada que justifique tal medida. É que eles sabem o que não querem que você saiba, mas que agora está sabendo.

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